Tarô de Marselha ou Rider-Waite: qual baralho escolher

As duas famílias de baralho mais usadas lado a lado: como cada uma se lê, a troca de lugar entre A Força e A Justiça, qual é mais fácil para iniciante e como evitar baralho ruim.

Duas cartas de tarô lado a lado, uma com círculos e outra com uma paisagem

Quem vai comprar o primeiro baralho de tarô esbarra logo numa pergunta: Marselha ou Rider-Waite? As duas são as famílias de baralho mais usadas, e a escolha muda bastante o jeito de estudar. A Marselha pede que você leia por número, cor e símbolo. O Rider-Waite entrega uma cena em cada carta e deixa a intuição trabalhar.

Não existe o melhor baralho de tarô em absoluto, e eu desconfio de quem diga o contrário. Existe o baralho que combina com o seu jeito de ler, com o seu momento de estudo e com o que você quer fazer com ele. Abaixo estão as diferenças práticas, um exemplo da mesma carta nos dois estilos, a troca curiosa entre A Força e A Justiça, uma terceira opção e alguns cuidados antes de pagar.

As duas famílias numa olhada

O tarô de Marselha é um estilo gráfico francês dos séculos XVII e XVIII. O nome vem da cidade, que teve fabricantes de cartas em atividade nessa época, e hoje serve para nomear todo um jeito de desenhar as 78 cartas: traços grossos, cores chapadas (vermelho, azul, amarelo, verde, carne), figuras de perfil ou de três quartos, sem sombreado. Nos arcanos maiores há figuras. Nos arcanos menores não há cena: o Três de Copas é só três taças desenhadas com ornamentos, e o Sete de Espadas é sete lâminas em curvas que se cruzam.

O Rider-Waite-Smith foi publicado em 1909, em Londres, pela editora Rider. A concepção foi de Arthur Edward Waite e as ilustrações são de Pamela Colman Smith. A grande novidade é que as 56 cartas dos arcanos menores ganharam cenas: o Três de Copas tem três mulheres dançando com taças erguidas, o Cinco de Copas tem uma figura de capa preta olhando três taças derrubadas. Quase todos os baralhos modernos de tarô que você vê em livrarias são variações desse estilo.

Como se lê um baralho de Marselha

Na Marselha, a carta é menos uma história e mais um quadro de elementos. A leitura costuma partir de três perguntas: qual é o número, quais são os símbolos, para onde a figura olha ou aponta. Os arcanos menores são lidos pelo naipe e pela quantidade. Quatro taças são quatro vezes o assunto de Copas, que é o afeto: quatro é estabilidade, e o resultado é alguma coisa como “afeto que se firma, ou que se fecha”.

Há quem ame esse método porque ele exige disciplina e dá sensação de sistema. O custo é que o iniciante precisa saber de antemão o que cada naipe e cada número significam, porque a imagem não ajuda. O texto sobre os arcanos menores mostra como montar esse raciocínio com naipe, número e figura da corte, e ele serve tanto para a Marselha quanto para qualquer outro baralho.

Como se lê um baralho Rider-Waite-Smith

No Rider-Waite, a leitura começa pelo olhar. O que a figura está fazendo? Para onde ela olha? Que cores e objetos aparecem ao fundo? Você pode ler uma carta que nunca estudou só por isso. O Oito de Ouros mostra um artesão martelando moedas num banco, com várias já prontas à vista: dá para dizer, sem consultar livro nenhum, que a carta fala de trabalho repetitivo e de ofício sendo dominado.

Por isso muitos livros de iniciação usam esse baralho. É mais fácil começar a falar sobre uma carta quando ela tem um assunto visível. A contrapartida é que a cena pode induzir você a ler de modo literal: o Dez de Espadas tem uma figura deitada com dez lâminas nas costas, e quem lê só a imagem acha que é violência, quando a carta costuma ser lida como fim de um ciclo de dor.

A troca entre A Força e A Justiça

Uma diferença curiosa entre as duas famílias é a numeração. Na Marselha, A Justiça é a carta VIII e A Força é a XI. No Rider-Waite-Smith, A Força é a VIII e A Justiça é a XI. As duas trocaram de lugar. O resto dos arcanos maiores mantém a numeração, de modo que esse é o ponto onde você mais vai notar a diferença quando mudar de baralho.

Por que a troca? Costuma-se ligá-la a um sistema de correspondências com os signos que ordens esotéricas inglesas do fim do século XIX adotaram, mas os detalhes variam de autor para autor e eu prefiro não afirmar mais do que sei. Na prática, a diferença só importa se você lê números: quem estuda por número precisa saber de que baralho está falando. Quem lê pela imagem nem repara. Para ler mais sobre as duas cartas, há os textos sobre A Força e A Justiça.

Outro detalhe é O Louco. Em muitos baralhos de Marselha ele aparece sem número, e em muitos Rider-Waite aparece como zero. É a mesma carta, com a mesma ideia de começar sem mapa. Se quiser ver o que o site diz dela, está em O Louco.

A mesma carta nos dois baralhos: o Três de Copas

Pegue o Três de Copas e olhe para as duas versões. Na Marselha, você tem três taças dispostas em triângulo, com flores ou ornamentos entre elas. Lida pelo método dela, a carta é: Copas (afeto) vezes três (crescimento, colaboração). Frase: afeto que se multiplica quando é compartilhado.

No Rider-Waite, você tem três mulheres de braços levantados, taças no alto, frutas e flores aos pés. Lida pela cena: uma celebração entre amigas, festa, apoio mútuo. Frase: alegria compartilhada.

As duas frases dizem quase a mesma coisa. A diferença está no caminho: a primeira vem da regra, a segunda vem da imagem. Quem sabe fazer as duas ganha uma checagem cruzada: se a conta e a cena discordam, vale investigar.

Qual é mais fácil para quem está começando

Minha opinião é que o Rider-Waite-Smith, ou um baralho derivado dele, é o caminho mais curto para o iniciante. Pela simples razão de que cada uma das 78 cartas tem uma cena que ajuda a lembrar e a conversar. A maioria dos livros, cursos e exemplos em português usa as imagens dele, o que facilita seguir um passo a passo como a Cruz Celta.

A Marselha é uma ótima segunda etapa, ou uma primeira etapa para quem gosta de estudar sistemas, números e simetria. Uma boa regra é: se você é do tipo que lê a imagem antes do texto, comece pelo Rider-Waite; se é do tipo que prefere uma regra clara antes de sentir, a Marselha pode ser mais confortável. Nenhuma das duas escolhas é errada e muita gente acaba com os dois.

Quem lê para temas específicos pode pensar também em como a leitura vai ser usada. Para perguntas de afeto, como as do guia tarô do amor, a cena do Rider-Waite costuma dar assunto. Para treinar uma leitura sobre trabalho (o texto sobre o tarô da carreira tem exemplos), as imagens também ajudam, mas é questão de gosto.

Uma terceira opção: baralhos contemporâneos e outras famílias

Há centenas de baralhos que não são nem Marselha nem Rider-Waite puro. Muitos são contemporâneos, feitos por artistas independentes, e quase todos mantêm a estrutura de 78 cartas (22 maiores e 56 menores) e os mesmos nomes de naipes. Alguns usam as cenas do Rider-Waite em outra estética, com outras figuras, outras cores, outros corpos. Isso pode ser bom: um baralho com o qual você se identifica visualmente tende a ser usado com mais frequência.

Também existe o Thoth, criado por Aleister Crowley e pintado por Frieda Harris. Ele tem um sistema próprio de correspondências e uma simbologia densa. Não o recomendo como primeiro baralho: é mais fácil apreciá-lo depois de conhecer bem uma das duas famílias principais.

O critério para um baralho contemporâneo é simples. Ele precisa manter a estrutura de 78 cartas, ter os nomes e números impressos (ou um livreto claro) e ter imagens em que você consiga ler uma cena. Se um desses três falta, vai dar trabalho.

Cuidado com baralhos de capa bonita

Há um tipo de compra que dá errado com frequência: o baralho de caixa linda, preço alto e conteúdo que não serve para estudar. Os problemas mais comuns são cartas sem nenhum texto impresso e sem número, o que obriga a descobrir qual carta é qual pelo desenho; baralhos que não têm as 78 cartas; baralhos com ilustrações tão abstratas que não dão apoio para a leitura; e livretos que ocupam duas páginas e não explicam as cartas.

Outro engano é confundir tarô com baralho oracular. Oráculos têm quantidades variadas de cartas (36, 44, 52, o que o autor decidir), não seguem a divisão em arcanos maiores e menores e usam significados próprios. São um produto diferente, não pior, mas que não serve para estudar o tarô.

Antes de comprar, siga uma checagem curta:

  • Confira que o baralho tem 78 cartas.
  • Veja se os nomes e números estão impressos, no mínimo nos arcanos maiores.
  • Olhe todas as cartas que puder, não só as da propaganda: as menos bonitas vão aparecer nas suas leituras.
  • Confira o tamanho. Cartas muito grandes são difíceis de embaralhar com mãos pequenas, e cartas muito pequenas escondem detalhes.
  • Veja o acabamento. Papel muito fino amassa, e papel muito brilhante escorrega.

E o jogo de treino antes de comprar

Se ainda está em dúvida, treine com uma carta virtual. O jogo de tarô gratuito sorteia uma carta e dá a imagem e a leitura. É um jeito barato de perceber se você gosta de ler pela cena. Quem usa invertidas pode ler antes o texto sobre cartas invertidas no tarô, porque o embaralhar de cada baralho interfere nisso.

Perguntas frequentes

Posso estudar com os dois baralhos ao mesmo tempo?

Pode, mas atrapalha no início. As trocas de numeração e a diferença entre cenas e símbolos confundem. O mais prático é fixar um baralho por alguns meses e só depois olhar o outro.

Marselha é mais antigo do que Rider-Waite?

Sim. A Marselha é um estilo gráfico dos séculos XVII e XVIII, e o Rider-Waite-Smith é de 1909. Isso não faz um deles mais verdadeiro ou mais certo. É só uma diferença de época.

É verdade que não se deve comprar o próprio baralho?

É uma crença popular e eu a trato como folclore. Não há base para dizer que um baralho comprado por você funcione pior. Se alguém quiser lhe dar um de presente, ótimo, mas combine a escolha antes. O melhor baralho é o que você abre com vontade.

Qual baralho usam os exemplos deste texto?

Os exemplos seguem as imagens e a numeração do Rider-Waite-Smith, mas o raciocínio por naipe e número serve para os dois estilos.

O tarô é uma ferramenta de reflexão e entretenimento e não substitui orientação psicológica, médica ou jurídica.